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A essência da Cesca no universo do design

Criada na era Bauhaus e renascida em lares contemporâneos, a Cesca revela como técnica, afeto e simplicidade podem atravessar quase um século sem perder força ou relevância

Há peças de design que não pertencem apenas ao passado, nem ao presente, mas a algo mais amplo: uma espécie de tempo próprio. A cadeira Cesca é uma delas. Criada em 1928, ainda na efervescência da Bauhaus, ela nasceu em um período em que o design buscava sintetizar função, beleza e acessibilidade. Ao mesmo tempo, sua história carrega nuances pessoais, técnicas e culturais que explicam por que essa cadeira ultrapassou quase um século sem perder relevância. A Cesca parece simultaneamente antiga e atual, simples e sofisticada, industrial e artesanal. Essa dualidade é justamente o que a mantém viva no imaginário do design mundial.

 

Foi Marcel Breuer, aos 26 anos, quem concebeu a Cesca. Jovem, ousado e profundamente influenciado pelos princípios da Bauhaus, Breuer buscava uma estética que rompesse com as tradições do mobiliário europeu. Naquele contexto, a madeira maciça ainda dominava, e móveis eram frequentemente pensados como objetos robustos e ornamentados. Breuer caminhou na direção oposta. Inspirado na leveza das bicicletas, ele acreditava que o aço tubular permitiria criar formas novas, mais fluidas e funcionais. O nome da cadeira, aliás, carrega uma delicadeza rara. Cesca vem de Francesca, sua filha. Um gesto íntimo que contrasta com a racionalidade modernista. A peça, assim, combina técnica e afeto desde sua origem.

A Cesca foi revolucionária porque alterou uma das estruturas mais básicas do mobiliário: ela eliminou as pernas traseiras. Sua base em aço curvado cria um movimento contínuo que sustenta o assento e o encosto como se o ar também participasse da construção. Esse desenho, chamado de cantilever, permitiu que a cadeira ganhasse leveza visual sem perder estabilidade. O assento e o encosto em palhinha adicionam textura e calor, equilibrando o toque frio do metal. Essa mistura entre o industrial e o artesanal é uma das razões pelas quais a Cesca parece eterna. Ela tem a lógica da modernidade com a poesia da tradição.

Produzida desde o início com a intenção de ser escalonável, a Cesca representa um raro encontro entre tecnologia e artesanato. O aço tubular, que traz precisão e repetibilidade, se une à palhinha feita à mão, que introduz imperfeições naturais e uma sensação de acolhimento. Breuer acreditava que o design deveria ser funcional, acessível e honesto em sua construção. Ao olhar para a Cesca, isso se torna muito claro. Nada ali é supérfluo. Cada curva, cada junção e cada material serve a um propósito. O resultado é uma cadeira que carrega uma força estética silenciosa, capaz de dialogar com diferentes estilos e épocas.

A essência da Bauhaus está em cada detalhe da Cesca. A escola defendia que o design deveria servir ao cotidiano, eliminando excessos e priorizando a funcionalidade sem abrir mão da beleza. A Cesca traduz esses princípios com precisão. Ela é simples sem ser simplista. Moderna sem ser dura. Sofisticada sem precisar se anunciar. A cadeira se tornou uma síntese perfeita entre forma e função. É como se representasse a própria Bauhaus em sua materialidade: acessível, racional, mas profundamente elegante.

Quando analisamos sua trajetória, percebemos o quanto a Cesca se adaptou ao tempo. Ela saiu de ateliês alemães modernistas e, décadas depois, encontrou espaço em salas de jantar contemporâneas ao redor do mundo. Está presente em casas minimalistas, apartamentos boêmios, ambientes clássicos e projetos arquitetônicos que valorizam luz natural e texturas orgânicas. Sua versatilidade é impressionante. A Cesca funciona tanto como protagonista quanto como peça complementar, e sua presença muda conforme o ambiente. Sob luz natural, por exemplo, a palhinha ganha uma vibração dourada; à noite, ela exala um charme silencioso e quase cinematográfico.

Mas talvez o motivo mais verdadeiro pelo qual a Cesca é tão amada esteja no fato de que ela é discreta e marcante ao mesmo tempo. Ela não domina o ambiente, mas o transforma. Sua estrutura leve, seu ar modernista e sua memória afetiva criam um equilíbrio raro. A Cesca tem personalidade, mas também tem humildade. Ela sabe ocupar seu espaço sem pedir licença. É uma peça que encanta quem aprecia design, mas também conquista quem, mesmo sem conhecer sua história, sente imediatamente sua beleza.

Ao longo das décadas, a Cesca ganhou versões, reedições e aprovações oficiais de marcas que ajudaram a espalhar seu legado. Empresas como Thonet, Knoll e Stendig produziram a cadeira em diferentes períodos, respeitando as proporções e os materiais originais. Hoje, ela existe com e sem braços, em variações que mudam detalhes, mas nunca alteram sua alma. Mesmo as versões reinterpretadas preservam o espírito da peça: leveza, funcionalidade e honestidade estrutural.

A Cesca permanece como um exemplo perfeito de que o bom design é aquele que atravessa gerações sem ruído. Ela resiste porque é essencial, porque é equilibrada, porque traduz com naturalidade o encontro entre técnica e emoção. Ainda hoje, quase cem anos depois, sua silhueta continua sendo uma das formas mais reconhecíveis do mobiliário moderno. Não há exagero, não há esforço, não há truques. Há apenas verdade, intenção e uma elegância que se sustenta sozinha.